AS PROFESSORAS E OS PROFESSORES FALAM

Quando questionados sobre o recreio, o que os professores têm a falar?

Reportagem sobre o que professoras e professores falam sobre o recreio

Realidade dos professores:

Em um sistema estruturalmente deficiente, os professores denunciam um esvaziamento do sentido pedagógico da escola, que se corrompe por conta de tantos desvios de função e sobrecargas. A respeito disso, dizem:

O que dizem

A escola está muito sozinha, nesse papel comunitário (...) a sensação que a gente tem mesmo é de abandono

Tudo é responsabilidade do professor: somos Bombril, temos mil e uma utilidades

A culpa é sempre do professor: o professor tem medo do recreio: como é que eu vou levar o meu aluno pra brincar? E se acontecer alguma coisa com ele? Coisa essa que seria normal, porque criança cai, gente. Criança vai brincar pra cair. Cair faz parte do brincar. Como é que isso vai ser recebido?

De que tipo de recreio estamos falando?

Questionados sobre o debate do recreio, essa pergunta sempre vem à tona. Como se define o recreio? Qual o seu valor formativo?

O que dizem

É o momento deles [estudantes]: vão comer (...) e vão ali ralar o joelho e sujar a roupa pra mãe lavar, ponto. É o que define recreio. Quinze a meia hora.

Eu acho o recreio um momento em que eles vão comer, dar uma descansada, extravasar, brincar e voltar pra matéria de novo

Não fosse a merenda, não haveria um momento específico ao recreio

É possível pensar em uma regularidade do recreio?

Diversas vezes, é constatado pelos professores a condicionalidade do recreio como estratégia de sobrevivência à realidade do ensino público. Em uma gangorra de direitos, deveres e valores meritocráticos, o recreio é reconhecido como um jogo de forças, interesses e perspectivas.

O que dizem

A gente [professores] vive em um sistema de falências, e o recreio é o menor dos nossos problemas: é direito da criança ter professor, antes mesmo do recreio

É uma luta de garantias por direito, eu entendo isso: é o direito da criança ter recreio, nós não discordamos disso. Mas também é direito do professor dar uma aula de qualidade, que muitas vezes é sonegada pelo próprio Estado: quando faz você acumular funções; quando faz você ter que trabalhar em vários lugares diferentes, para poder fazer um salário de sobrevivência; quando faz você ter que dobrar de função sem ter nada registrado, mas dizendo que isso é função sua, porque a escola tem que garantir a lei… Só que não te dá condições de garantir a lei, então você lida com um trabalho sobrehumano.

Percebe que a gente tá utilizando o recreio para resolver outros problemas? O recreio virou moeda de troca.

A nossa profissão foi tão esvaziada de valor e sentido que às vezes a gente tem que usar esses mecanismos de combinação como estratégia de educação

Esse direito já está garantido, só que também é preciso cumprir os combinados. Eles já começam com recreio. Eles podem perder o recreio ao longo do dia a depender deste comportamento. Não é que o recreio vai ser suprimido. A questão é que eles têm esse espaço, que normalmente é garantido para eles; talvez não da forma que eles imaginam que deveria ser, por questões de logística, por questões de espaço. Mas tem esse espaço garantido para eles. Às vezes o espaço é retirado, mas, quando isso acontece, tem uma voz muito maior do que o espaço totalmente garantido diariamente.